A história de um pai migrante e de uma filha que virou jornalista e psicóloga para contar a vida dos homens que, tijolo a tijolo, ergueram a maior cidade do país.
"Por que meu pai não tinha casa própria, se ele vinha ajudar a construir prédios tão grandes em São Paulo?"
Foi essa pergunta, carregada por uma menina do Sertão do Piauí, que décadas depois deu origem a este livro-reportagem. Escrito originalmente em 2003 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, o texto nasceu da necessidade de Maria Vanusa dos Santos Ferreira entender a própria história: a de uma família que sobreviveu às idas e vindas do pai, Simplício, entre o Sertão e os canteiros de obra paulistanos.
Mais do que uma reportagem sobre a construção civil, é o relato de uma filha que se tornou jornalista para dar voz aos homens que, segundo ela, são "artistas que fazem verdadeiras obras de arte a céu aberto".
Simplício saía de casa, no Sertão do Piauí, para trabalhar na construção de prédios em São Paulo. Era a quarta vez. Maria, a filha mais velha, tinha seis anos. Com o passar dos anos, cada partida se tornava um sofrimento maior, porque ela se sentia abandonada.
A viagem começava em São Gonçalo, seguia uma hora de carro até Pedro II, e de lá eram três dias de ônibus da Itapemirim até São Paulo. O dinheiro que Simplício enviava nunca era suficiente, e a família (pai, mãe e sete filhos) vivia da esperança do seu retorno.
"Como o mundo seria melhor pelo olhar infantil, tudo seria mais fácil e sem tantas burocracias." Sobre a imaginação de Maria criança a respeito de São Paulo

A migração nordestina, explica o historiador Paulo Fontes no livro, não foi um acidente: "é organizada por redes sociais, que os próprios trabalhadores tinham e têm, como a família, a comunidade". Foi assim que o Nordeste se tornou, a partir da década de 30, a região que mais enviou trabalhadores para os canteiros de São Paulo, sendo a construção civil um dos ramos onde mais se concentraram.

O Terminal Rodoviário Tietê era o primeiro choque: por ali passavam cem mil pessoas por dia. Raimundo Rodrigues, servente geral vindo do Piauí, contou: "tive vontade de voltar para trás. Fiquei com medo". Djalma Ferraz Rocha lembra que, ao chegar, "só tem mato lá; cheguei aqui, não vi mato e fiquei apavorado".
Muitos operários passaram os primeiros anos em alojamentos improvisados sob viadutos, em quartos com quatro beliches para até sete homens, com banheiro coletivo e nenhum refeitório. Outros foram morar na periferia, em favelas erguidas aos poucos, nos fins de semana, com a ajuda solidária dos colegas de trabalho.
"A gente mora aqui embaixo do viaduto porque se acostuma em todo canto que chega, de todo jeito tá bom. Morar embaixo do viaduto num é muito bom, mais vai fazer o quê?"
Edvaldo Manuel de Santana, servente geralÉ do título do livro que nasce sua tese central: construir é uma arte, e os operários, seus artistas anônimos. "É uma inteligência que não é aprendida em escola, é tudo aprendido na prática", diz um dos entrevistados. Homens que erguem um prédio do chão até encostar no céu, que fazem um poço de elevador de cem metros sem uma linha fora de prumo. Terminada a obra, seguem para a próxima sem que ninguém saiba seus nomes.


"Meu trabaio é uma obra de arte. Deixo uma parede bem lisinha, igual um carro, sem nem um buraco." Joab Pereira, pintor
Registro fotográfico
Quatro fotografias do mesmo canteiro, no mesmo dia de trabalho: formas de madeira, armação de ferro, concretagem e a estrutura já erguida.




Carregar sacos de cimento de 50 quilos, quebrar concreto sob sol ou chuva com um martelete de 30 quilos e trabalhar o dia inteiro com a roupa molhada de suor ou de chuva: é esse o retrato que o livro traça dos chamados "Homens de Ferro". E, apesar do esforço, é também um trabalho historicamente discriminado.
"Peão de obra" tornou-se um termo carregado de preconceito. Muitos trabalhadores relatam vergonha de dizer onde trabalham, dificuldade para namorar, desconfiança da polícia e olhares de desprezo na rua, mesmo pagando pelo mesmo prato num restaurante.

"O peão não tem que ser amargurado. Fora da obra, o peão é igual a qualquer pessoa. [...] Se o peão andar limpinho, saber se comportar, ele vai ser bem tratado em qualquer lugar." Francisco Roque, mestre de obras
Apesar de tudo, sonham: com um comércio próprio na terra natal, com ver os filhos crescerem, com que a próxima geração não precise trabalhar na construção. "Quero ver meus filhos crescer", resume Jaílson Moura da Silva, que por anos dividiu a vida entre Pernambuco e São Paulo.


Aos 11 anos, Maria Vanusa buscava água com um balde na cabeça e cuidava da casa da patroa. Aos 13, foi para São Paulo trabalhar como babá. Casou-se aos 15 anos com um trabalhador da construção civil, o Roque, que em poucos meses já era líder de equipe nas obras.
Aos 17, voltou a estudar, recomeçando na quinta série. Fez o supletivo e, aos 22, entrou na Faculdade de Jornalismo da Universidade Bandeirante de São Paulo, concluindo o curso em 2003, ano em que escreveu este livro-reportagem como trabalho de conclusão de curso. Em 2006, formou-se também em Psicologia.
Até seu próprio nome carrega a história da ausência do pai: registrada como "Maria" por Simplício, quando a mãe já havia escolhido "Vanusa". "Hoje oficialmente sou: Maria Vanusa."
"Para compreender minha história de vida, tornei-me jornalista a fim de contar histórias e entender nossas origens. [...] Formei-me psicóloga e pude entender melhor as ausências de meu pai." Maria Vanusa dos Santos Ferreira
O marido de Vanusa começou como pedreiro ainda adolescente e, ao longo de três décadas, passou por dezenas de obras que ajudaram a redesenhar o skyline de São Paulo e de outras capitais: shoppings, edifícios corporativos, estações de metrô e hotéis de luxo.

Linha do tempo
Um registro da trajetória profissional de Francisco Roque, de pedreiro a mestre de obras, com as datas e obras tal como documentadas pela família.

Escrito em 2003 e revisitado em edições posteriores, o livro registra as mudanças da construção civil brasileira: empresas hoje raramente oferecem alojamento, mas investem em qualificação; menos jovens migram do Nordeste, já que o interior passou a oferecer mais oportunidades.
A obra e sua autora seguem sendo apresentadas em eventos sobre o universo da construção civil, como o programa "Segredo da Construção", que reuniu familiares e convidados para discutir os bastidores do setor documentado por Vanusa.
A conclusão do livro resume o percurso: "o saber se dá não só na escola e nas faculdades, mas também nas relações de trabalho."
Histórias em vídeo
Flagrantes verticais, gravados por celular, do dia a dia das obras retratadas no livro.
Arquivo de memórias





